Médica tricologista explicando a relação entre ferritina baixa e queda de cabelo feminina
Natasha Veloso

Ferritina baixa e queda de cabelo: a causa silenciosa que o hemograma não mostra

Ferritina baixa e queda de cabelo: a causa silenciosa que o hemograma não mostra

Ela fez o hemograma, tudo dentro do limite. O médico disse que estava ótima, porém o cabelo continuava caindo, os fios continuavam finos, o travesseiro continuava acumulando o que ela preferia não ver.

Existe uma causa de queda de cabelo feminina que é sistematicamente subestimada nas consultas convencionais: a ferritina baixa. Não a anemia, não a falta de ferro no sangue circulante, mas os estoques de ferro no organismo, que o hemograma comum simplesmente não avalia.

Se você já fez exame e recebeu alta sem resposta, minha medusa atenta, este artigo é para você.


O que é ferritina e por que ela importa para o cabelo

A ferritina é a proteína que armazena ferro no organismo. Enquanto o hemograma convencional avalia o ferro circulante no sangue, a ferritina reflete os estoques, ou seja, a reserva disponível para os tecidos, inclusive para o folículo capilar.

O folículo piloso é um dos tecidos de maior atividade metabólica do corpo. Ele precisa de ferro para multiplicar células e sustentar a fase de crescimento do fio, chamada fase anágena. Quando a ferritina cai abaixo de um nível funcional, o organismo faz uma escolha silenciosa: preserva ferro para funções vitais e reduz o suprimento para tecidos considerados secundários, entre eles o couro cabeludo.

O resultado é o eflúvio telógeno: os fios entram prematuramente na fase de queda, a densidade diminui de forma difusa e a mulher percebe um aumento significativo na quantidade de cabelo que cai, sem que nenhum exame básico aponte nada errado.


Por que o hemograma não basta

Aqui está o ponto que mais gera confusão, e que eu explico em consulta com frequência. Mulheres com eflúvio telógeno crônico apresentaram ferritina média de 14,7 µg/L, contra 43,5 µg/L no grupo sem queda capilar, segundo estudo publicado em revista científica de farmacologia e fisiologia. Contudo, ambos os grupos podem ter hemograma completamente normal!

Isso acontece porque o corpo prioriza o ferro sérico antes de comprometer a ferritina, e só compromete a ferritina antes de comprometer a hemoglobina. A anemia é o último estágio da deficiência de ferro, não o primeiro. Porém, a queda de cabelo começa muito antes de qualquer anemia aparecer.

A conclusão clínica é direta: pedir hemograma para investigar queda de cabelo sem pedir ferritina sérica é não investigar a causa mais provável.


Qual valor de ferritina é adequado para a saúde capilar

Os laboratórios consideram valores de ferritina acima de 12 ou 15 µg/L como dentro da faixa normal. Esse valor é suficiente para evitar anemia, porém não é suficiente para sustentar crescimento capilar adequado.

A literatura de tricologia e os dados clínicos apontam que, para saúde capilar feminina, os níveis de ferritina ideais ficam entre 70 e 100 µg/L. Abaixo disso, mesmo sem sintomas sistêmicos, o folículo já pode estar em sofrimento.

Portanto, uma paciente com ferritina de 25 µg/L pode receber alta do clínico geral, pois está “dentro do normal”, e ainda assim estar com queda capilar significativa por deficiência funcional de ferro. Essa diferença muda tudo no diagnóstico e no tratamento.


Ferritina, menopausa e queda de cabelo: a tríade que aparece no consultório

Na perimenopausa e na menopausa, a queda de cabelo pode ter múltiplas causas simultâneas. A deficiência de ferritina é uma das mais frequentes, e aparece por dois caminhos distintos.

O primeiro é o histórico de ciclos menstruais intensos ao longo da vida: anos de sangramento abundante podem ter esgotado os estoques de ferro sem que nunca tenha havido sintoma evidente.

O segundo, menos intuitivo: na perimenopausa, ciclos irregulares e mais intensos são comuns e aumentam a perda de ferro justamente quando os hormônios protetores do folículo já estão em queda. Assim, dois fatores de queda atuam ao mesmo tempo, um hormonal e outro nutricional, e o resultado é uma queda mais intensa do que qualquer um deles causaria sozinho.

Além disso, nessa fase, a absorção intestinal de ferro pode ser menos eficiente, sobretudo em mulheres com inflamação subclínica ou alterações na microbiota intestinal.


Como investigar a ferritina na avaliação capilar

Na Consulta Reflexo 360, a avaliação de ferritina sérica faz parte do painel de exames que oriento para toda paciente com queda de cabelo, especialmente acima dos 40 anos.

Porém, pedir o exame é apenas o começo. A interpretação precisa considerar o quadro clínico completo: o padrão de queda na tricoscopia, o histórico hormonal, outros marcadores nutricionais como vitamina D e zinco, e a função tireoidiana, que frequentemente aparece alterada no mesmo perfil de paciente.

Tratar ferritina baixa isoladamente, sem diagnóstico diferencial, raramente resolve a queda de cabelo por completo. Contudo, ignorá-la dentro de um protocolo mantém a paciente num ciclo de tratamentos parciais que não chegam à raiz do problema.


Quando buscar avaliação

Se você está com queda de cabelo, já fez hemograma e foi liberada sem resposta, o próximo passo não é esperar nem tentar outro shampoo. É pedir especificamente a dosagem de ferritina sérica e levá-la para uma consulta com uma médica tricologista, que saberá interpretar esse valor dentro do seu quadro completo.

Atendo em São Paulo, no Paraíso, na Oasyum. A Consulta Reflexo 360 começa com escuta, avaliação clínica, tricoscopia digital e orientação de exames direcionados ao seu caso.

Você talvez não tenha tentado de tudo. Talvez tenha tentado tudo sem o diagnóstico certo e essa é uma diferença que muda o resultado. ✨

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Sobre a autora
Dra. Natasha Veloso (CRM-SP 172.505) é médica formada pelo CESUPA (Centro Universitário do Pará), pós-graduada em dermatologia, estética e cirurgia dermatológica, e hoje dedica sua atuação à tricologia e à saúde capilar feminina, com foco em queda de cabelo na perimenopausa e na menopausa. Fundadora da Oasyum, em São Paulo, e associada à Academia Brasileira de Tricologia (ABT) e Associação Brasileira de Climatério (SOBRAC). Acesse: draveloso.com.br

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